No início do século XIX, em 1809, durante a segunda invasão francesa a Portugal, o medo espalhou-se entre as gentes do que é hoje o concelho de Boticas. Temendo que as tropas pilhassem os seus bens, a população tratou de esconder tudo o que pôde. O vinho, orgulho e sustento de muitos, teve um destino invulgar: foi enterrado no chão das adegas, longe do olhar e do saque dos invasores.

UM TESTEMUNHO DO ENGENHO E RESILIÊNCIA DOS BOTIQUENSES QUE CHEGOU ATÉ AOS DIAS DE HOJE.
Meses depois, com a ameaça dissipada, os moradores desenterraram o precioso néctar. A surpresa foi geral: apresentava um teor alcoólico mais baixo e um ligeiro gás, resultado de um processo de fermentação natural provocado pelo tempo passado sob a terra.

A peculiaridade do sabor e o modo singular como fora preservado valeram-lhe um nome que sobrevive até hoje — Vinho dos Mortos. Longe de estar condenada ao esquecimento, esta tradição enraizou-se na cultura local, sendo ainda preservada e celebrada pela Casa Sousa, como testemunho de engenho, resiliência e identidade de uma região.

Tiago Rodrigues
Natural de Lisboa, trocou a capital por uma aldeia no Barroso, onde tem desenvolvido projetos com várias instituições locais. É designer gráfico e editor de arte na UMinho Editora. Fundou em 2017 o Terra Callaeci, projeto dedicado à divulgação da paisagem cultural transmontana, enquanto construção dos povos que nela habitaram (e habitam).



